
Diógenes de Sínope
ESTEJA FELIZ, CIDADÃO,
POIS A TELEVISÃO É SUA AMIGA!
A televisão é sua amiga.
A televisão irá ajudá-lo a ser feliz.
Ela lhe trará cultura, educação e enTERtenimento.
A televisão é legal. A televisão lhe disse isso.
Você não está feliz em ter uma televisão?
Você não ousa questionar a televisão, não é mesmo, cidadão?
Pois saibam que hoje eu vi na TV uma coisa bizarra.
Tratava-se de uma menina com os olhos tapados por duas mãos adultas. Então as mão saem dos olhos da menina, mas existem mais mãos sobre os olhos dela, de forma que as mãos vão saindo, uma a uma, enquanto um discurso é proferido. Era ele mais ou menos assim:
"Os programas de televisão possuem uma idade indicativa, que mostra para qual idade os programas são adequados. Entretanto, ninguém melhor que os pais pode decidir o que é bom para seus filhos. A TV aberta brasileira lhe dá cultura, educação e enTERtenimento. Milhões de brasileiros assistem televisão."
E nesse momento, a última mão sai dos olhos da menina. Abre ela um cativante sorriso, feliz pela liberdade (ou talvez seja o diretor dizendo: sorri, sua pirralha de merda).
Oh, agora os pais dela (quer dizer, ELA, já que os pais dela trabalham e não têm tempo pra ficar em casa vendo o que ela está assistindo) já podem decidir o que ela pode assistir.
------------------------------------------
Hah, longe de mim dizer que deveria existir uma censura para os programas.
Afinal, quem são estas pessoas magníficas que podem julgar o que os outros podem ou não fazer?
Mas convenhamos, quem são também os pais para decidir alguma coisa?
E quem é a criança para decidir por si mesma?
------------------------------------------
Alegrem-se, meus amigos!
O mundo será salvo!
Pois saibam que a destruição do mundo agora é pop!
Salvem as baleias e as jaboticabas silvestres!
(Se é que elas ainda existem)
------------------------------------------
Cena 1: Ou talvez, o prelúdio
Estava eu dentro de um veículo com motor de combustão extremamente ineficiente (cujo combustível é fóssil) quando avisto na calçada uma mulher que entrega folhetos.
Meu pai preparou em seu rosto aquele olhar "Eu não quero seu papel imundo, remova-se daqui", mas eu, sabendo que os tais folhetos são em verdade uma bela mídia para alguns dos conteúdos mais cômicos de nossa formidável civilização (veja o Anexo 1), aceitei o folheto.
Abro eu o folheto e começo a rir.
(Anexo 1: Em seu non-sense, em sua psicodelia, em sua completa desconexão com a realidade, folhetos comerciais como o que recebi equiparam-se aos programas de humor televisivos, que são cultos, educativos e divertidos, no sentido econômico completamente contrário mas, entenda e não se engane, ainda sobre o mesmo eixo social. E isso é assunto para toda uma nova discussão.)
------------------------------------------
Cena 2: A descoberta de um nome
Um grupo de marketeiros sentados em volta de uma mesa, assustados, com a memória ainda fresca de seu chefe dizendo: "VENDAM ESTA MERDA DE EDIFÍCIO OU ESTÃO DESPEDIDOS!"
"Precisamos de um nome elegante, despojado e principalmente... moderno." - diz uma mulher com cabelos loiros pintados.
Os olhos se entreolham, e vêem olhos vermelhos de sono e tédio.
"Já sei" - diz um rapaz assustado, o estagiário. "Belle... Belle... Belle alguma coisa." Mas que coisa, hein estagiário! Você tinha uma idéia, ou quase.
"Ai, que horror! Hmph, 'Belle'! Todos já usaram essa palavra em algum edifício! Francês é tão retrô!"
"Ok, caras" - diz o consultor internacional. "Belle... Vue."
"O que isso quer dizer?"
"Não sei. Mas agora parece sofisticado, não acham? Hein, pessoinhas?"
------------------------------------------
Cena 3: Fast-forward video portraiting shiny happy people
Esta é aquela cena em que uma música animada toca enquanto as imagens mostram as pessoas trabalhando felizes e enfim conseguindo fazer o que elas deviam fazer. (Que nem nos filmes de adolescentes americanos preparando "A festa")
Ao final, os marketeiros se reúnem para ver o resultado:
Sobre o edifício se diz:
Belle Vue, moderno e sofisticado como a cidade, especial e exclusivo como você.
290m² de área total, 152m² de área privativa.
Áreas comuns entregues equipadas e decoradas.
Sobre o apartamento se diz:
3 suítes ou 4 dormitórios.
Living com lareira e churrasqueira integrada à cozinha.
Ampla sacada aberta.
Dormitório de serviço reversível para home offíce.
Elevador social e hall privativo.
Sobre o condomínio se diz:
Piscina adulta com raia de 25m, com prainha e piscina infantil.
Sauna.
Lan House.
Salão de festas com espaço gourmet.
Fitness.
Playground.
Brinquedoteca.
Fotos produzidas em estúdio. Computação gráfica para mostrar como será o edifício. Tudo isso impresso sobre papel da maior qualidade, lustroso e chique como as mãozinhas que irão segurá-lo.
------------------------------------------
Cena 4: The end of all hope
Eis que o folheto cai nas mãos de Diógenes, o cínico. Desde a capa põe-se a rir (internamente, pois externamente ele sabe que ninguém compreenderia [veja o Anexo 2]).
- Belle Vue, moderno e sofisticado como a cidade,
Ceeeerto. Moderno e sofisticado como a cidade? De que cidade será que eles estão falando? Será mesmo de Porto Alegre, a velha e não tão boa Porto Alegre, que mal consegue se sustentar acima do mínimo aceitável para o terceiro mundo?
- especial e exclusivo como você.
Esta parte é boa! ESPECIAL e EXCLUSIVO. Se sou exclusivo, sou especial. Se sou especial, sou exclusivo. Oh, como eu adoro os sinônimos!
- 290m² de área total, 152m² de área privativa.
Como é que pessoas especiais e exclusivas podem compartilhar espaço assim?
- Áreas comuns entregues equipadas e decoradas.
Eu achei que para pessoas especiais e exclusivas isso fosse um pré-requisito, não um item adicional.
Sobre o apartamento se diz:
3 suítes ou 4 dormitórios.
Esta parte eu não entendi. Será o quarto quarto é a dependência de empregada? Será que ao se adicionar a dependência de empregada à conta as três suítes são reduzidas a dormitórios?
Living com lareira e churrasqueira integrada à cozinha.
A churrasqueira não está integrada à cozinha, está próxima. Se estivesse integrada, o chão da cozinha ficaria em chamas a cada churrasco.
Ampla sacada aberta.
Ampla? AMPLA?! 5 metros por 1.5 metros. Vamos fazer logo um baile na nossa sacada!
Dormitório de serviço reversível para home offíce.
Ou seja, aquela salinha escura onde você enfia um computador e, durante o verão, as pessoas exclusivas chegam a temperaturas de cozinhamento.
Elevador social e hall privativo.
HEREGES! Vocês não entendem nada de pessoas exclusivas! Eu quero meu próprio elevador! E daí que eu moro no térreo? Eu quero!
Piscina adulta com raia de 25m, com prainha e piscina infantil.
Nunca mais saia de casa! Compartilhe sua exclusiva praia com mais 200 moradores de seu prédio sofisticado e exclusivo!
Sauna.
Aquele serviço legal que nunca vai realmente funcionar porque as pessoas nunca vão poder ir quando querem, porque não são especiais o suficiente para manter lá um gnomo mexicano para ficar cuidando do troço 24h x 7 dias.
Lan House.
All your base are belong to us! Certifique-se de que seus filhos ultra-mimados tornem-se em completos retardados! Pague quantias absurdas de eletricidade porque os computadores ficaram todos ligados! Enfrente as piores reuniões de condomínio de todos os tempos, em que os pais são obrigados a fazer o upgrade de 10 computadores ao mesmo tempo por pressão dos filhos!
Salão de festas com espaço gourmet.
Eu não faço idéia. Mas com certeza não é tão bom quanto parece.
Fitness.
A professora será mandada embora em dois meses por falta de alunos (todo mundo está ocupado demais). Durante alguns anos algumas tentativas frustradas serão feitas em nome da boa forma física e da saúde, mas todas falharão devido ao desinteresse geral. As máquinas de exercícios vão enferrujar e ninguém vai querer consertar, porque a maioria dos condôminos não irá usar a sala de fitness, e no fim você vai chegar à conclusão de que ir na academia é mais fácil e barato - quando e se você quiser fazer exercícios.
Playground.
Squeek! Squeek! Squeek!
Alguém aí está ouvindo balanços enferrujados que não deixam ninguém dormir? Eu estou.
Brinquedoteca.
Aquela sala idiota que depois de dois anos só vai ter os brinquedos que nenhuma criança quer. E falem sério, que filho de pessoa especial e exclusiva vai querer esses brinquedos toscos e ainda por cima compartilhar eles com um monte de outras crianças ranhentas e cretinas? Que idéia estúpida.
(Anexo 2: A menos, é claro, que ele escreva um texto excessivamente longo; e talvez nem assim ele possa ser de fato compreendido.)
------------------------------------------
Cena 69: Alguns segundos mais tarde, naquele mesmo dia
Estava eu dentro de um veículo com motor de combustão extremamente ineficiente (cujo combustível é fóssil) quando avisto no meio da pista um gato.
"Puxa! Um gato. Que coisa interessante." - dirão alguns.
Bom! Acontece que não era propriamente um gato, mas a carcaça imperfeita daquilo que um dia havia sido um gato (leia o anexo 3).
Entendam, e vejam não o que, mas como eu vi: onde um dia havia estado um cérebro restava um crânio oco.
'Onde estaria este cérebro?' - imediatamente me perguntei. Afinal, se os cérebros pudessem deixar os nossos corpos assim sem mais nem menos, o mundo seria bem mais interessante.
Avistei então o cérebro alguns metros mais adiante. Não todo, é claro, pois parte já devia ter sido arrastada por um pneu, ou por formigas especialmente famintas.
Mas vamos ao que é importante, as orelhas do felino ainda estavam na posição anatômica correta (Veja anexo 4) - o que me leva a pensar que provavelmente o cérebro tenha saído pelos olhos, mas talvez isso não seja essencial para este texto.
...
...
Lembre-se, pois isto é importante: a posição das orelhas do gato ainda era anatomicamente correta.
...
...
"Mas por que a posição anatomicamente correta das orelhas do gato é importante?" -, você certamente se perguntará (veja o anexo 5).
E eu responderei: "Ora! Você é humano, carne, osso e sangue vital. Você compartilha com o gato uma especial capacidade de deixar partes suas pelo caminho. Se você não deixar suas orelhas pelo asfalto - ou pelos pneus de algum carro -, você ainda assim pode deixar o seu cérebro." - e assim, querendo o melhor para ti, meu querido leitor, eu completaria: "Mantenha seus braços para dentro do carro. Seu 'status' especial e sua 'exclusividade' se aplicam apenas num nível abstrato. Pois para todos os outros casos, você pode ter braços, pernas, orelhas e cérebro levados a posições anatomicamente incorretas e pouco confortáveis."
(Anexo 3: Aliás, Platão teria problemas para definir este gato. Afinal, seria um gato amassado - representação imperfeita do gato não amassado do mundo das idéias - ou seria um gato amassado - representação imperfeita do gato amassado do mundo das idéias? Uma representação dupla? Oh, que questão importante...)
(Anexo 4: Vejam que uma posição não é mais correta que outra a menos que digamos em que sentido ela está correta. Por exemplo, um cérebro espalhado no meu para-choque não é necessariamente correto anatomicamente [nem para o gato, nem para o carro], mas felizmente pode ser a posição correta para uma boa piada [Veja o anexo 4b].)
(Anexo 4b: A graça da piada, é claro, depende muito da percepção de mundo da pessoa [Anexo 4c].)
(Anexo 4c: A percepção de mundo das pessoas é assunto para outro texto - para quando eu for mais Diógenes do que hoje sou.)
(Anexo 5: Devo me proteger de possíveis falhas. Digo, portanto, que em verdade você apenas se perguntará isso se chegar àquele ponto do texto. Mas na verdade não importa, porque se você não chegar àquela parte do texto, não poderá dizer: "eu cheguei até ali e não me perguntei aquilo".)
POIS A TELEVISÃO É SUA AMIGA!
A televisão é sua amiga.
A televisão irá ajudá-lo a ser feliz.
Ela lhe trará cultura, educação e enTERtenimento.
A televisão é legal. A televisão lhe disse isso.
Você não está feliz em ter uma televisão?
Você não ousa questionar a televisão, não é mesmo, cidadão?
Pois saibam que hoje eu vi na TV uma coisa bizarra.
Tratava-se de uma menina com os olhos tapados por duas mãos adultas. Então as mão saem dos olhos da menina, mas existem mais mãos sobre os olhos dela, de forma que as mãos vão saindo, uma a uma, enquanto um discurso é proferido. Era ele mais ou menos assim:
"Os programas de televisão possuem uma idade indicativa, que mostra para qual idade os programas são adequados. Entretanto, ninguém melhor que os pais pode decidir o que é bom para seus filhos. A TV aberta brasileira lhe dá cultura, educação e enTERtenimento. Milhões de brasileiros assistem televisão."
E nesse momento, a última mão sai dos olhos da menina. Abre ela um cativante sorriso, feliz pela liberdade (ou talvez seja o diretor dizendo: sorri, sua pirralha de merda).
Oh, agora os pais dela (quer dizer, ELA, já que os pais dela trabalham e não têm tempo pra ficar em casa vendo o que ela está assistindo) já podem decidir o que ela pode assistir.
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Hah, longe de mim dizer que deveria existir uma censura para os programas.
Afinal, quem são estas pessoas magníficas que podem julgar o que os outros podem ou não fazer?
Mas convenhamos, quem são também os pais para decidir alguma coisa?
E quem é a criança para decidir por si mesma?
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Alegrem-se, meus amigos!
O mundo será salvo!
Pois saibam que a destruição do mundo agora é pop!
Salvem as baleias e as jaboticabas silvestres!
(Se é que elas ainda existem)
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Cena 1: Ou talvez, o prelúdio
Estava eu dentro de um veículo com motor de combustão extremamente ineficiente (cujo combustível é fóssil) quando avisto na calçada uma mulher que entrega folhetos.
Meu pai preparou em seu rosto aquele olhar "Eu não quero seu papel imundo, remova-se daqui", mas eu, sabendo que os tais folhetos são em verdade uma bela mídia para alguns dos conteúdos mais cômicos de nossa formidável civilização (veja o Anexo 1), aceitei o folheto.
Abro eu o folheto e começo a rir.
(Anexo 1: Em seu non-sense, em sua psicodelia, em sua completa desconexão com a realidade, folhetos comerciais como o que recebi equiparam-se aos programas de humor televisivos, que são cultos, educativos e divertidos, no sentido econômico completamente contrário mas, entenda e não se engane, ainda sobre o mesmo eixo social. E isso é assunto para toda uma nova discussão.)
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Cena 2: A descoberta de um nome
Um grupo de marketeiros sentados em volta de uma mesa, assustados, com a memória ainda fresca de seu chefe dizendo: "VENDAM ESTA MERDA DE EDIFÍCIO OU ESTÃO DESPEDIDOS!"
"Precisamos de um nome elegante, despojado e principalmente... moderno." - diz uma mulher com cabelos loiros pintados.
Os olhos se entreolham, e vêem olhos vermelhos de sono e tédio.
"Já sei" - diz um rapaz assustado, o estagiário. "Belle... Belle... Belle alguma coisa." Mas que coisa, hein estagiário! Você tinha uma idéia, ou quase.
"Ai, que horror! Hmph, 'Belle'! Todos já usaram essa palavra em algum edifício! Francês é tão retrô!"
"Ok, caras" - diz o consultor internacional. "Belle... Vue."
"O que isso quer dizer?"
"Não sei. Mas agora parece sofisticado, não acham? Hein, pessoinhas?"
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Cena 3: Fast-forward video portraiting shiny happy people
Esta é aquela cena em que uma música animada toca enquanto as imagens mostram as pessoas trabalhando felizes e enfim conseguindo fazer o que elas deviam fazer. (Que nem nos filmes de adolescentes americanos preparando "A festa")
Ao final, os marketeiros se reúnem para ver o resultado:
Sobre o edifício se diz:
Belle Vue, moderno e sofisticado como a cidade, especial e exclusivo como você.
290m² de área total, 152m² de área privativa.
Áreas comuns entregues equipadas e decoradas.
Sobre o apartamento se diz:
3 suítes ou 4 dormitórios.
Living com lareira e churrasqueira integrada à cozinha.
Ampla sacada aberta.
Dormitório de serviço reversível para home offíce.
Elevador social e hall privativo.
Sobre o condomínio se diz:
Piscina adulta com raia de 25m, com prainha e piscina infantil.
Sauna.
Lan House.
Salão de festas com espaço gourmet.
Fitness.
Playground.
Brinquedoteca.
Fotos produzidas em estúdio. Computação gráfica para mostrar como será o edifício. Tudo isso impresso sobre papel da maior qualidade, lustroso e chique como as mãozinhas que irão segurá-lo.
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Cena 4: The end of all hope
Eis que o folheto cai nas mãos de Diógenes, o cínico. Desde a capa põe-se a rir (internamente, pois externamente ele sabe que ninguém compreenderia [veja o Anexo 2]).
- Belle Vue, moderno e sofisticado como a cidade,
Ceeeerto. Moderno e sofisticado como a cidade? De que cidade será que eles estão falando? Será mesmo de Porto Alegre, a velha e não tão boa Porto Alegre, que mal consegue se sustentar acima do mínimo aceitável para o terceiro mundo?
- especial e exclusivo como você.
Esta parte é boa! ESPECIAL e EXCLUSIVO. Se sou exclusivo, sou especial. Se sou especial, sou exclusivo. Oh, como eu adoro os sinônimos!
- 290m² de área total, 152m² de área privativa.
Como é que pessoas especiais e exclusivas podem compartilhar espaço assim?
- Áreas comuns entregues equipadas e decoradas.
Eu achei que para pessoas especiais e exclusivas isso fosse um pré-requisito, não um item adicional.
Sobre o apartamento se diz:
3 suítes ou 4 dormitórios.
Esta parte eu não entendi. Será o quarto quarto é a dependência de empregada? Será que ao se adicionar a dependência de empregada à conta as três suítes são reduzidas a dormitórios?
Living com lareira e churrasqueira integrada à cozinha.
A churrasqueira não está integrada à cozinha, está próxima. Se estivesse integrada, o chão da cozinha ficaria em chamas a cada churrasco.
Ampla sacada aberta.
Ampla? AMPLA?! 5 metros por 1.5 metros. Vamos fazer logo um baile na nossa sacada!
Dormitório de serviço reversível para home offíce.
Ou seja, aquela salinha escura onde você enfia um computador e, durante o verão, as pessoas exclusivas chegam a temperaturas de cozinhamento.
Elevador social e hall privativo.
HEREGES! Vocês não entendem nada de pessoas exclusivas! Eu quero meu próprio elevador! E daí que eu moro no térreo? Eu quero!
Piscina adulta com raia de 25m, com prainha e piscina infantil.
Nunca mais saia de casa! Compartilhe sua exclusiva praia com mais 200 moradores de seu prédio sofisticado e exclusivo!
Sauna.
Aquele serviço legal que nunca vai realmente funcionar porque as pessoas nunca vão poder ir quando querem, porque não são especiais o suficiente para manter lá um gnomo mexicano para ficar cuidando do troço 24h x 7 dias.
Lan House.
All your base are belong to us! Certifique-se de que seus filhos ultra-mimados tornem-se em completos retardados! Pague quantias absurdas de eletricidade porque os computadores ficaram todos ligados! Enfrente as piores reuniões de condomínio de todos os tempos, em que os pais são obrigados a fazer o upgrade de 10 computadores ao mesmo tempo por pressão dos filhos!
Salão de festas com espaço gourmet.
Eu não faço idéia. Mas com certeza não é tão bom quanto parece.
Fitness.
A professora será mandada embora em dois meses por falta de alunos (todo mundo está ocupado demais). Durante alguns anos algumas tentativas frustradas serão feitas em nome da boa forma física e da saúde, mas todas falharão devido ao desinteresse geral. As máquinas de exercícios vão enferrujar e ninguém vai querer consertar, porque a maioria dos condôminos não irá usar a sala de fitness, e no fim você vai chegar à conclusão de que ir na academia é mais fácil e barato - quando e se você quiser fazer exercícios.
Playground.
Squeek! Squeek! Squeek!
Alguém aí está ouvindo balanços enferrujados que não deixam ninguém dormir? Eu estou.
Brinquedoteca.
Aquela sala idiota que depois de dois anos só vai ter os brinquedos que nenhuma criança quer. E falem sério, que filho de pessoa especial e exclusiva vai querer esses brinquedos toscos e ainda por cima compartilhar eles com um monte de outras crianças ranhentas e cretinas? Que idéia estúpida.
(Anexo 2: A menos, é claro, que ele escreva um texto excessivamente longo; e talvez nem assim ele possa ser de fato compreendido.)
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Cena 69: Alguns segundos mais tarde, naquele mesmo dia
Estava eu dentro de um veículo com motor de combustão extremamente ineficiente (cujo combustível é fóssil) quando avisto no meio da pista um gato.
"Puxa! Um gato. Que coisa interessante." - dirão alguns.
Bom! Acontece que não era propriamente um gato, mas a carcaça imperfeita daquilo que um dia havia sido um gato (leia o anexo 3).
Entendam, e vejam não o que, mas como eu vi: onde um dia havia estado um cérebro restava um crânio oco.
'Onde estaria este cérebro?' - imediatamente me perguntei. Afinal, se os cérebros pudessem deixar os nossos corpos assim sem mais nem menos, o mundo seria bem mais interessante.
Avistei então o cérebro alguns metros mais adiante. Não todo, é claro, pois parte já devia ter sido arrastada por um pneu, ou por formigas especialmente famintas.
Mas vamos ao que é importante, as orelhas do felino ainda estavam na posição anatômica correta (Veja anexo 4) - o que me leva a pensar que provavelmente o cérebro tenha saído pelos olhos, mas talvez isso não seja essencial para este texto.
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Lembre-se, pois isto é importante: a posição das orelhas do gato ainda era anatomicamente correta.
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"Mas por que a posição anatomicamente correta das orelhas do gato é importante?" -, você certamente se perguntará (veja o anexo 5).
E eu responderei: "Ora! Você é humano, carne, osso e sangue vital. Você compartilha com o gato uma especial capacidade de deixar partes suas pelo caminho. Se você não deixar suas orelhas pelo asfalto - ou pelos pneus de algum carro -, você ainda assim pode deixar o seu cérebro." - e assim, querendo o melhor para ti, meu querido leitor, eu completaria: "Mantenha seus braços para dentro do carro. Seu 'status' especial e sua 'exclusividade' se aplicam apenas num nível abstrato. Pois para todos os outros casos, você pode ter braços, pernas, orelhas e cérebro levados a posições anatomicamente incorretas e pouco confortáveis."
(Anexo 3: Aliás, Platão teria problemas para definir este gato. Afinal, seria um gato amassado - representação imperfeita do gato não amassado do mundo das idéias - ou seria um gato amassado - representação imperfeita do gato amassado do mundo das idéias? Uma representação dupla? Oh, que questão importante...)
(Anexo 4: Vejam que uma posição não é mais correta que outra a menos que digamos em que sentido ela está correta. Por exemplo, um cérebro espalhado no meu para-choque não é necessariamente correto anatomicamente [nem para o gato, nem para o carro], mas felizmente pode ser a posição correta para uma boa piada [Veja o anexo 4b].)
(Anexo 4b: A graça da piada, é claro, depende muito da percepção de mundo da pessoa [Anexo 4c].)
(Anexo 4c: A percepção de mundo das pessoas é assunto para outro texto - para quando eu for mais Diógenes do que hoje sou.)
(Anexo 5: Devo me proteger de possíveis falhas. Digo, portanto, que em verdade você apenas se perguntará isso se chegar àquele ponto do texto. Mas na verdade não importa, porque se você não chegar àquela parte do texto, não poderá dizer: "eu cheguei até ali e não me perguntei aquilo".)

2 Comments:
At 11:36 PM, fevereiro 04, 2007,
Ray Conniff said…
Donde teço cinco breves considerações acerca do texto escrito pelo dileto amigo Dan..., digo, Diógenes, o sábio:
1. Eu acredito que essa coisa de decidir pelos outros é necessária, face à imaturidade que temos na infância –e, no meu caso, nas demais fases da vida-. O erro é uma constante na existência humana, a questão é que os pais têm menor probabilidade de erro, já que tiveram mais experiências e etc. Claro, isso funciona até certa idade. Por certo, também, isso é a regra, há sempre a exceção.
2. Estou intrigado com esta coisa de “Destruição do Mundo é Pop”. Falarei mais em breve a respeito. O fato é que, de um dia para o outro, passou a ser a “Agenda Global” um troço que qualquer um medianamente inteligente estava percebendo, ou seja, está quente para cacete e isso não vai acabar bem. Porto Alegre, por exemplo, está como um Senegal. Ah, sim, se eu acreditasse em Teoria da Conspiração, diria que é tudo uma manobra do Bush para desviar atenção dos erros no Iraque e para tentar deixar algum mínimo legado que preste de um governo que, por certo, não será julgado como um dos mais brilhantes ao longo da história mundial.
3. Salvem as baleias! Cobrarei Royalties por essa! :).
At 11:36 PM, fevereiro 04, 2007,
Ray Conniff said…
4. Falando em LAN houses, temos que jogar Warcraft, eis um jogo que incha meu cerébro!
5. Eu não sei. Eu sinceramente não tenho as respostas. But I still have to try.
6. Sobre Platão e o gato: só li o ‘Fedon’ do autor, mas acho que o gato seria uma representação de um gato amassado. E, mesmo assim, ele seria um gato, pois corresponderia, em grande parte, à idéia abstrata que temos de gato.
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