Diógenes - Marketing
Senhores, peço desculpas por sumir. Ando com pouco tempo livre, e o tempo que tenho é dividido entre dormir e tentar aprender coisas de meu interesse. Antes que perguntem "como pode estar sem tempo livre se dorme?", direi: dormir, mais do que um luxo, é uma necessidade fisiológica; e, por que não, mental. Pois a sociedade hipócrita e doente nos faz sentir vergonha do ócio, e até mesmo cria agentes internos que operam para que toda forma de ócio seja reprimida e desencorajada; chamar-te-ão (?) de vagabundo, inútil, imbecil, revoltado, etc. etc. etc.; bem verdade, talvez você seja isso mesmo, mas e daí?; enfim, ouçam o que digo: o ócio é a única função digna do homem. Para todas as outras, temos (ou teríamos, não fosse a precariedade desta civilização) ferramentas autômatas.
Pois bem, hoje vou abordar rapidamente algo que muito me incomoda: marketing. Não tenho como escrever uma crítica produtiva, tampouco realizar uma análise científica do item que me incomoda. Portanto, farei o que já me é natural: xingar aleatoriamente e impensadamente.
Primeiro, permitam-me definir o marketing que normalmente é aplicado pelas empresas como: "A arte de aumentar o valor de uma coisa, em geral, muito além de seu valor verdadeiro"; ou seja, a arte de enganar as pessoas, criando necessidade onde não há e desejo onde ele poderia não existir (e isso seria bom, por óbvio). Claro que poderíamos dizer que marketing apenas busca apresentar produtos e soluções para problemas que as pessoas podem (ou não) ter, o que seria louvável em algumas situações, por exemplo: mostrar para uma pessoa que precisa cortar grama um novo modelo de cortador de grama, incluindo suas funcionalidades e capacidades, permitindo-lhe dimensionar a ferramenta ao problema; ou, para uma pessoa que tem uma dor de cabeça, apresentar um novo analgésico, permitindo-lhe resolver seu problema incentivando a auto-medicação e...
Pensando bem, esse não é um bom exemplo. Vá que a pessoa tenha um coágulo no cérebro, e ao deixar de ir no médico venha a morrer? Ok, o marketing é feio e mau. (Se bem que o médico também pode deixar de ver o tal coágulo, e nesse caso ele é que é feio e mau.)
A verdade é que eu tenho problemas com vendedores, comerciais, produtos e com os padrões da civilização ocidental. Vejam, por exemplo, a propaganda do Ford Fusion:
"Pra poder falar, você precisa ter ouvido."
Claaaro. É bem assim que funciona.
"Pra poder acertar, você precisa ter tentado."
Às vezes eu acerto sem nem tentar antes.
"Pra poder liderar, você precisa ter obedecido."
Isso é sério? Eu não tenho nenhum exemplo contrário em mente, mas eu tenho certeza que existem inúmeros.
"Se você dirige um Ford Fusion, você fez por merecer."
Que porra é essa? Fez por merecer? E os filhinhos de papai, fizeram por merecer? E se o Saddam Hussein comprou essa merda, ele fez por merecer? Deve ter feito, né?
Sobre propagandas de pasta de dente: por que os dentistas que aparecem são sempre fotogênicos e felizes? E as vozes! Vozes dubladas! Sempre! Sempre! Será que os dentistas são todos seres fotogênicos com vozes terríveis? De qualquer forma, estes que aparecem na TV parecem malditos zumbis; e, para piorar, sempre há uma criança chata (que, a propósito, não se parece nada com o pai nem com a mãe) e aí o suposto dentista diz: "mais proteção para meu filhinho! Né Zezinho?".
Porra, será que eles acham mesmo que eu vou me deixar influenciar por uma performance de quinta categoria dessas, e ainda por cima dublada? O que é que há, hein? Os dentistas não podem falar por si mesmos? Ou será que foi uma única marca que teve essa idéia GENIAL e depois decidiu estabelecer um maldito padrão sobre como fazer propagandas de pasta de dente?
Sabem o que mais me dá medo (e o real motivo de eu ter escrito o parágrafo acima)? A marca Sensodyne resolveu fazer uma propaganda realista. Ao invés de usar aquele filme que deixa a gravação com cores mais bonitas que as cores da vida real, eles usaram um filme comum. Ao invés de usar a velha fórmula mãe dentista / filho chato, colocaram só a dentista (e jovem!). Ao invés de dublarem a voz dela, deixaram ela usar a própria. Ao invés de gravar num consultório mega-futurista, gravaram num consultório normal (arrumado, porém comum).
Então eu fiquei pensando... será que ELES sabem que EU sei que eles são toscos, e aí estão tentando me enganar?
Não conseguiram. HAH! Pois eu vi que a moça estava usando maquiagem demais. Hmph, que dentista de respeito vai toda maquiada para o consultório, deixando-se influenciar por um bando de publicitários de meia tigela a recomendar uma marca? Só se estiver desesperada por dinheiro e não tiver critérios. E, se for esse o caso, será o tipo de dentista que irá tentar me vender qualquer merda de pasta de dente, e não uma boa, só porque está ganhando dinheiro nisso.
Ok, este exemplo da pasta de dente não é bom, mas pensem nas propagandas do edifício "exclusivo e especial" e nesse carro para pessoas "que fizeram por merecer"...
A mensagem que fica é: se você não puder comprá-lo após 60 anos de trabalho árduo, que tipo de pessoa você é? Enfim: o que devem pensar as pessoas que, após 60 anos, não podem sonhar em comprar um destes artigos de luxo? E que maldita definição de sucesso é essa?
Gostaria de pegar uma pessoa que tenha dedicado a vida inteira a cuidar de velhinhos doentes ganhando um salário de miséria e colocá-la à frente de um publicitário de uma dessas campanhas. Sabem o que aconteceria?
Nada. Pois assim são as pessoas: imbecis, más, toscas, burras e hipócritas. Por hora, estou sem adjetivos, mas reforço: principalmente, hipócritas. Pois a mesma pessoa que vai lá e faz uma campanha que defende que pessoas que obtiveram êxito financeiro são as verdadeiras "pessoas de sucesso" faz trabalho comunitário para ajudar velhinhos doentes.
Entendem? É a merda da dualidade do ser humano. E é por isso que eu digo: "FODAM-SE TODOS. Onde está minha cerveja?"
Essa é a sociedade em que vivemos, e acreditar que regras, fé ou qualquer outra merda pode consertá-la é burrice. Sinto-me enojado. Sinto náuseas quando vejo TV, quando recebo folhetos no semáforo e quando vejo um carro na rua (sim, existem muitas pessoas que fizeram por merecer por aí). As pessoas que formulam tais pérolas são, sem dúvida, minhas inimigas.
PS: A propósito, o carro é muito bonito. Gostaria de comprar um, mas infelizmente gastaria nele todos os meus recursos, já que o carro foi super-valorizado através do trabalho de enganação elaborado por algum publicitariozinho corrupto.
Pois bem, hoje vou abordar rapidamente algo que muito me incomoda: marketing. Não tenho como escrever uma crítica produtiva, tampouco realizar uma análise científica do item que me incomoda. Portanto, farei o que já me é natural: xingar aleatoriamente e impensadamente.
Primeiro, permitam-me definir o marketing que normalmente é aplicado pelas empresas como: "A arte de aumentar o valor de uma coisa, em geral, muito além de seu valor verdadeiro"; ou seja, a arte de enganar as pessoas, criando necessidade onde não há e desejo onde ele poderia não existir (e isso seria bom, por óbvio). Claro que poderíamos dizer que marketing apenas busca apresentar produtos e soluções para problemas que as pessoas podem (ou não) ter, o que seria louvável em algumas situações, por exemplo: mostrar para uma pessoa que precisa cortar grama um novo modelo de cortador de grama, incluindo suas funcionalidades e capacidades, permitindo-lhe dimensionar a ferramenta ao problema; ou, para uma pessoa que tem uma dor de cabeça, apresentar um novo analgésico, permitindo-lhe resolver seu problema incentivando a auto-medicação e...
Pensando bem, esse não é um bom exemplo. Vá que a pessoa tenha um coágulo no cérebro, e ao deixar de ir no médico venha a morrer? Ok, o marketing é feio e mau. (Se bem que o médico também pode deixar de ver o tal coágulo, e nesse caso ele é que é feio e mau.)
A verdade é que eu tenho problemas com vendedores, comerciais, produtos e com os padrões da civilização ocidental. Vejam, por exemplo, a propaganda do Ford Fusion:
"Pra poder falar, você precisa ter ouvido."
Claaaro. É bem assim que funciona.
"Pra poder acertar, você precisa ter tentado."
Às vezes eu acerto sem nem tentar antes.
"Pra poder liderar, você precisa ter obedecido."
Isso é sério? Eu não tenho nenhum exemplo contrário em mente, mas eu tenho certeza que existem inúmeros.
"Se você dirige um Ford Fusion, você fez por merecer."
Que porra é essa? Fez por merecer? E os filhinhos de papai, fizeram por merecer? E se o Saddam Hussein comprou essa merda, ele fez por merecer? Deve ter feito, né?
Sobre propagandas de pasta de dente: por que os dentistas que aparecem são sempre fotogênicos e felizes? E as vozes! Vozes dubladas! Sempre! Sempre! Será que os dentistas são todos seres fotogênicos com vozes terríveis? De qualquer forma, estes que aparecem na TV parecem malditos zumbis; e, para piorar, sempre há uma criança chata (que, a propósito, não se parece nada com o pai nem com a mãe) e aí o suposto dentista diz: "mais proteção para meu filhinho! Né Zezinho?".
Porra, será que eles acham mesmo que eu vou me deixar influenciar por uma performance de quinta categoria dessas, e ainda por cima dublada? O que é que há, hein? Os dentistas não podem falar por si mesmos? Ou será que foi uma única marca que teve essa idéia GENIAL e depois decidiu estabelecer um maldito padrão sobre como fazer propagandas de pasta de dente?
Sabem o que mais me dá medo (e o real motivo de eu ter escrito o parágrafo acima)? A marca Sensodyne resolveu fazer uma propaganda realista. Ao invés de usar aquele filme que deixa a gravação com cores mais bonitas que as cores da vida real, eles usaram um filme comum. Ao invés de usar a velha fórmula mãe dentista / filho chato, colocaram só a dentista (e jovem!). Ao invés de dublarem a voz dela, deixaram ela usar a própria. Ao invés de gravar num consultório mega-futurista, gravaram num consultório normal (arrumado, porém comum).
Então eu fiquei pensando... será que ELES sabem que EU sei que eles são toscos, e aí estão tentando me enganar?
Não conseguiram. HAH! Pois eu vi que a moça estava usando maquiagem demais. Hmph, que dentista de respeito vai toda maquiada para o consultório, deixando-se influenciar por um bando de publicitários de meia tigela a recomendar uma marca? Só se estiver desesperada por dinheiro e não tiver critérios. E, se for esse o caso, será o tipo de dentista que irá tentar me vender qualquer merda de pasta de dente, e não uma boa, só porque está ganhando dinheiro nisso.
Ok, este exemplo da pasta de dente não é bom, mas pensem nas propagandas do edifício "exclusivo e especial" e nesse carro para pessoas "que fizeram por merecer"...
A mensagem que fica é: se você não puder comprá-lo após 60 anos de trabalho árduo, que tipo de pessoa você é? Enfim: o que devem pensar as pessoas que, após 60 anos, não podem sonhar em comprar um destes artigos de luxo? E que maldita definição de sucesso é essa?
Gostaria de pegar uma pessoa que tenha dedicado a vida inteira a cuidar de velhinhos doentes ganhando um salário de miséria e colocá-la à frente de um publicitário de uma dessas campanhas. Sabem o que aconteceria?
Nada. Pois assim são as pessoas: imbecis, más, toscas, burras e hipócritas. Por hora, estou sem adjetivos, mas reforço: principalmente, hipócritas. Pois a mesma pessoa que vai lá e faz uma campanha que defende que pessoas que obtiveram êxito financeiro são as verdadeiras "pessoas de sucesso" faz trabalho comunitário para ajudar velhinhos doentes.
Entendem? É a merda da dualidade do ser humano. E é por isso que eu digo: "FODAM-SE TODOS. Onde está minha cerveja?"
Essa é a sociedade em que vivemos, e acreditar que regras, fé ou qualquer outra merda pode consertá-la é burrice. Sinto-me enojado. Sinto náuseas quando vejo TV, quando recebo folhetos no semáforo e quando vejo um carro na rua (sim, existem muitas pessoas que fizeram por merecer por aí). As pessoas que formulam tais pérolas são, sem dúvida, minhas inimigas.
PS: A propósito, o carro é muito bonito. Gostaria de comprar um, mas infelizmente gastaria nele todos os meus recursos, já que o carro foi super-valorizado através do trabalho de enganação elaborado por algum publicitariozinho corrupto.

2 Comments:
At 7:00 PM, dezembro 03, 2007,
Ray Conniff said…
Meu caro Diógenes, razão lhe assiste.
Em verdade, os publicitários são a profissão mais paradigmática do mundo moderno em que vivemos. Eles são como ‘prostitutas’ que vendem idéias para um único fim, a venda!
No mais, acho que eles não fazem por mal ao argumentar que a pessoa que utilizar seu produto vai ficar mais forte, bonita e/ou mereceu comprá-lo. É insuflar o ego do potencial comprador ou alguma outra agência irá fazê-lo, pois é o meio mais eficiente de atingir o resultado pretendido pelo cliente. Eles simplesmente ignoram os potenciais não-destinatários dos seus anúncios de elite, ou seja, 99% da população. Enfim, eles são mestres em criar ‘necessidades’, o que torna obsoleto o conceito de valor de troca ou valor utilidade.
Mas, claro, Saddam não mereceu. :)
Em tempo: eu também compraria um Ford Fusion, mas não tenho dinheiro.
Belo texto o seu. Abraço.
At 1:29 AM, dezembro 16, 2007,
Anônimo said…
Espetacular o texto!!!
Gostei pra caralho!!!
O marketing me irrita profundamente.Essa porra de marketing tá é dominando o mundo(ok...já dominou).
E o ócio é o máximo!!!
Ahhh,eu não compraria o carro,pois ainda não tenho saco nenhum para dirigir.
abraço!
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