Opiniões Proféticas

sexta-feira, maio 30, 2008

Diógenes de Sínope - Aqui estou novamente.

Olá, meus caros.

Não sei bem o que vou escrever. Isso não é exatamente verdade, pois pensei por alguns instantes no assunto e, após ler o texto do ilustre companheiro Nasrudin, recebi alguma inspiração.

Partirei de uma confissão totalmente sem conseqüências* e pretendo continuar daí, conforme possível, tentando largar pelo caminho algumas frases de efeito que com muito cuidado formulei, cultivei e por fim esqueci - ou seja, elas não eram tão importantes assim e não vou mais me ater a este fato.


O fato desimportante que aqui nos interessa é que esses dias um colega de trabalho me passou um DVD contendo uma série de desenho animado japonês (aka Anime). Confesso que assistir essa série até o final foi um feito sofrido, pois sentia que cada episódio era uma espécie de provação, na qual eu precisava suportar minutos de coisas desinteressantes para ver algo legal. Não que o anime seja ruim. Ele é bom, tendo-se em mente a finalidade com a qual foi criado (Dominação mental. "Compre-me! Vicie-se nos personagens! Assista até o último episódio, de preferência, deixando de tomar banho e comer!").

Talvez a melhor descrição para tudo isso seja que eu fui colado num tipo de pega-moscas demográfico - uma arma de destruição em massa focada numa determinada faixa da população. Neste caso, para minha humilhação e já que se trata de um Anime, a faixa dos adolescentes japoneses. De fato, devo estar meio emo nesses últimos dias. Chuva, solidão; sabem como é.

(Na verdade, eu estou exagerando, pois eu não fiquei tão colado assim [mas eu de fato assisti algumas vezes madrugada a dentro alguns episódios, o que sugou minha saúde e minha concentração nos dias seguintes a esses feitos], mas enfim, vale para o ponto que quero ilustrar no parágrafo que segue.)

Obviamente, toda série de TV, filme, música ou desenho animado é criado para ser vendido. Os malditos nipônicos** (sem querer ou por querer) acertaram com seus Animes uma faixa da população que, ao meu ver, só tende a crescer. Trata-se da faixa de população formada por essas crianças infelizes da nova geração (e inclusive, da geração não-tão-nova assim) que vão em encontros vestidos com roupas de personagens de desenhos animados para participar de competições de músicas em japonês, e que sofrem de sérios disturbios de relacionamento (acho que estou exagerando um pouco novamente, mas como disse antes, é conveniente para minha linha de pensamento).

(Percebo subitamente que o texto está ficando longo e chato e eu não cheguei a lugar algum.)

Bom, passando rapidamente à conclusão, meu ponto era apenas: "nada significa nada". Deve ser a milésima vez que escrevo isso, mas o que posso fazer? Estou preso nesse tema. Filmes, jogos de computador, animes, etc. Nada disso significa absolutamente nada.

Por exemplo, sinto subitamente vontade de jogar um jogo antigo de mega-drive. Lembro da musiquinha, até do som dos golpes do personagem, lembro da histórinha comovente... e isso não significa nada. Gostaria de voltar a jogá-lo, mas para quê? Sim, eu arranjaria tempo, preemptando outras tarefas, deixando de sair de casa, parando de tomar banho e aí, finalmente, poderia jogá-lo. Fecharia-me no meu quarto até algum dia acordar e perceber que meses se passaram e que o mundo mudou enquanto eu hibernava.

E um filme, anime ou série de TV? Podemos por vezes passar um dia fora de casa fazendo várias coisas do mundo real, mas descubrimos que desejamos apenas chegar em casa para sentar a bunda no sofá e ver durante uma hora, babando diante de uma tela, uma vida mais interessante do que a nossa, onde o amor de fato existe, onde a paixão é algo recíproco, onde o inimigo realmente é mau e o bonzinho é bom (e adorado, e famoso), onde toda depressão é subitamente seguida do encontro com a alma gêmea e consoladora.

E uma partida de RPG? Consiste em criar um mundo com uma organização, uma idéia que faz sentido. Consiste em contar uma história épica de um mundo interessante. Consiste em evoluir personagens (que são projeções da sua própria personalidade) e vê-los tornarem-se heróis, felizes e perfeitos. Existe veneno pior para a alma?

A vida deveria ser assim, como nos filmes, seriados de TV, animes e jogos. No entanto, aquela frase, "Acontece na TV, acontece na vida", é bobagem. Na vida, tudo é chato. Não temos tempo, as coisas não acontecem como queremos. Nos filmes, temos condensado em uma hora tudo o que há de interessante e tudo o que possui significado***. Nos filmes, todos são felizes, mesmo os vilões que morrem de forma horrorosa, pois eles possuem um início, um meio e fim repleto de significado.

A vida deveria ser um eterno "blaze of glory".

Tudo isso tem a ver, eu juro, com o que o amigo Nasrudin escreveu na mensagem anterior. De certa forma. Ou era pra ter a ver com o que ele escreveu e eu me perdi pelo caminho. Quer dizer, eu sei que massacrar um tema tão importante com analogias tão ruins e um texto tão mal formulado é maldade, mas quem se importa? Ainda mais quando eu estou tão sem tempo e deveria estar escrevendo uma monografia...

Para que este texto não seja um lixo completo, citarei uma frase legal de um filme muito bom (Clube da Luta, se não me engano), que diz mais ou menos isto:

"Há tanto potencial, e eu vejo o desperdício. (...) A publicidade nos faz correr atrás de carros e roupas, de trabalhos que odiamos tanto para que possamos comprar lixo que não precisamos. Nós somos os filhos do meio da história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é uma guerra espiritual... nossa Grande Depressão são nossas vidas. Nós fomos ensinados pela televisão a acreditar que algum dia seríamos milionários, deuses do cinema e estrelas do rock. Mas nós não somos. E estamos lentamente descobrindo isso. E nós estamos muito, muito irritados."

Ora, considerando-se que essa frase veio de um filme, é até irônico que eu a escreva aqui depois do que eu escrevi sobre os filmes, músicas, seriados de TV e animes. Mas talvez ela esteja certa, ainda que este filme seja apenas mais uma válvula de escape / ilusão criada pelo sistema para que tenhamos algo no que nos apoiar e suportar nossas chagas ****.

Finalmente, devo me contradizer um pouco e dizer que nada disso é culpa dos filmes, animes, músicas, jogos de computador, RPG's, PbEM's, PbF's e demais mecanismos de controle social. A culpa é nossa. E eu não deveria estar pensando nessas coisas, principalmente quando sei que meu julgamento está sendo afetado pela minha percepção do mundo. Mas aí vai mais um texto inútil, escrito como uma válvula de escape num momento em que eu devia estar trabalhando.

Viva o ócio ilusório, que depois te faz sentir culpado por ter gasto tempo em algo além do trabalho. Pois minha monografia está lá (na verdade aqui, nesta máquina mesmo, mas enfim) parada, e amanhã de manhã tenho aula, e terça tenho trabalho de Visualização científica, e quinta trabalho de lógica e Sistemas Embarcados. Ó céus. As coisas nunca acabam.


* Observação - Utilizem a trema enquanto podem. Em breve o português será uma novilíngua e todos poderão escrever como retardados sem serem julgados por isso.

** Observação - Japoneses são legais. Eu estava apenas fazendo referência a um famoso meme, "Malditos nipônicos!", que é utilizado de forma positiva quando algum indivíduo com ascendência japonesa supera um indivíduo de ascendência ocidental em alguma das várias áreas de grande importância para a humanidade, por exemplo, a engenharia, a medicina, o guitar hero e a dominação mental através de desenhos animados.

*** Observação - Deve ser por isso que eu sofri para ver aquele anime... porque demorava para chegar nas partes interessantes. Pudera, aquela desgraça tinha 50 episódios...

**** Observação - Em geral, as pessoas sentem necessidade de se colocar em "times", os vermelhos contra os azuis, os revoltados contra o sistema contra os comodistas, etc., o que obviamente não passa de uma distração e um sistema de controle.

3 Comments:

  • At 1:43 PM, junho 06, 2008, Anonymous Anônimo said…

    Isso ae meu velho... Bom te ver de volta!!! Bem... Só posso dizer que sou em parte, e grande parte, um escravo da televisão... Na verdade a primeira coisa ou segunda que faço ao chegar em casa é ligá-la... Isso realmente merece uma maior atenção... Tantas coisas a serem feitas nesse "mundão" e as vezes ficamos simplesmente prostrados na frente de uma tela para não perder "aquele" eposódio ou filme... Mas muitas vezes estamos perdendo a vida... Trágico?? Talvez... mas de certa forma é a relaidade...

     
  • At 8:03 PM, junho 06, 2008, Blogger Ray Conniff said…

    Este texto é fantástico. Sem demérito aos anteriores, mas ele é "fodão". Tu estás coberto de razão e analisa bem o grande drama da existência humana, o "What a fuck?" que nos chega quando paramos para pensar a respeito da vida. A parte da necessidade do "épico" é muito bem bolada, é exatamente assim que eu me sinto, mesmo nas menores coisas a gente emula um épico para tentar dar algum sentido.

    Sobre o anime, eu nunca vi, mas eu gasto meu tempo com futebol, então dá quase no mesmo...

    Qüinqüênio. Só para aproveitar antes do fim da trema.

    Falamos!

     
  • At 12:12 AM, junho 27, 2008, Anonymous Anônimo said…

    Concordo com o Conniff...

    É um espetacular texto!!!

    Não vou com a lata desses animes... mas não posso falar nada...Perco BASTANTE tempo com a TV.

    Abração!

     

Postar um comentário

<< Home