Opiniões Proféticas

segunda-feira, agosto 24, 2009

Diógenes - Plebiscito popular

O texto do colega Conniff me lembra mais uma vez daquela velha história: "o que falta no Brasil é educação. Educação, educação, educação!". Em um país como este, em que a verdade não é a verdade e em que as pessoas não têm vergonha na cara, é realmente difícil discutir qualquer coisa. Não só isso, é difícil levar as pessoas a se indignarem, é difícil convencer as pessoas de que algo está errado... de que algo está REALMENTE errado.

Bom, sobre o plebiscito popular realizado em Porto Alegre... trata-se de uma consulta à população, realizada pela prefeitura de Porto Alegre para decidirmos se pode-se construir prédios residenciais na área do Estaleiro Só.

Algumas informações (o pouco que sei sobre o assunto):
1) A área pertence a uma construtora. Já existe lá a possibilidade de construir prédios comerciais.
2) A construtora ofereceu realizar a rejuvenação da orla, com barzinhos, passeios, cais, etc., recebendo como contrapartida a permissão para construir também (em sua área, não na orla) prédios residenciais.

Resultado do plebiscito: 80% das pessoas votaram negativamente - ou seja, não, não se deve construir prédios residenciais naquela área. O jornal Zero Hora colocou uma chamada em letras garrafais nesse sentido, e diversas pessoas aparecem fazendo uma análise desse "expressivo resultado".

Detalhe: em uma cidade com 1 milhão de habitantes, apenas 18 mil votaram.

Detalhe 2: a empreiteira já decidiu há meses atrás que não iria construir nada na orla, não importava qual fosse o resultado do plebiscito. Como em outros casos (por exemplo, o caso em que o Dado Bier queria fazer uma obra na orla do centro), o governo, com sua burocracia e inflexibilidade, levou os investidores desistirem. É aquela velha história, que já se torna tão comum: "quer saber... fodam-se vocês, não estamos mais interessados em investir em porra nenhuma nessa cidade. Vão tomar no cú."

(Isso é o que eu imagino que um empreiteiro diria se passasse dois anos tentando investir seu dinheiro em uma cidade, encontrando todo tipo de problema... imagine esse dinheiro todo mofando porque um bando de vereadores não gostaram de um detalhe do projeto, ou precisam fazer um plebiscito marcado para daqui a uns 10 meses... quem tem mais do que R$ 50 no banco e gostaria de aplicar em algo útil sabe como é.)

Então, qual deve ser a nossa REAL análise dessa situação?
1) Que o povo não poderia estar se lixando mais para o assunto?
2) Que, se o governo não é capaz de decidir sobre isto, o que dirá nós, que não temos acesso às análises de impacto ambiental, dos efeitos urbanísticos, etc.?
3) De que o governo é incompetente, fraco e lava as mãos por covardia, porque não quer dar munição para a oposição na eleição vindoura?
4) Que as pessoas que foram de fato votar são: i) os ambientalistas e ii) os que vão perder a vista para o Rio/Lago Guaíba?
5) Que uma gigantesca obra urbanística é irrelevante para o plano diretor da cidade, de forma que a decisão pode ser delegada à população, que não entende porra nenhuma de porra nenhuma?
6) Que os nossos jornais são um lixo, que suas informações são desconexas e que as chamadas estão utilizando tamanho de fonte grande demais?

Bom, a minha análise é esta: todas as opções acima. Eu, ao contrário do amigo Conniff, não tenho nenhuma esperança para este mundo. Aliás, sigo acreditando que nada significa nada, e que não existe muito sentido em sequer escrevermos qualquer coisa aqui. Nada importa.

quinta-feira, agosto 06, 2009

CONNIFF - Raízes do Brasil


Interessante como algumas coisas simples podem definir a natureza de um povo inteiro. Peguemos, por exemplo, o comércio. No Brasil, é comum a confusão entre a esfera familiar/afetiva do indivíduo com a esfera negocial. Nunca fui à Escandinávia, mas posso afirmar que é curiosa a quantidade de negócios/problemas que são solucionados aqui com "eu conheço alguém que pode te ajudar...". "Eu tenho um parente que trabalha...". Lá na Noruega as coisas devem ser mais profissionais, presumo. Afinal, se eu procuro um sapateiro, não quero que ele seja meu amigo, mas sim que ele me arrume o sapato. Acho que li isso no Raízes do Brasil, sendo que os holandeses foram os primeiros a notar que, para se negociar no Brasil, era mais útil tornar-se amigo do comerciante.

Isso acaba descambando para outro problema, qual seja, a confusão entre o que é público e o que é privado. Na verdade, se a esfera profissional se confunde com a familiar, o abstrato conceito de coisa pública torna-se um tanto quanto mais complicado para ser apreendido pelo brasileiro médio. Generalizações, saca. A coisa pública é de todos, de ninguém, logo, ela é minha. "Se eu puder entrar nela, tenho mais é que arrumar uma boa quantidade de parentes para aquinhoar na grande mãe leiteira que é o Estado". Este é o pensamento prevalente. Para isso, tenho outra explicação e outro parágrafo. "Na tela!".

No Brasil, já devo ter dito isso, as coisas sempre vieram de cima para baixo. A estrutura burocrática surgiu em 1818, antes que tívessemos maturação suficiente como povo para fazer qualquer coisa. Nesta oportunidade, inclusive, a Família Real chegou confiscando propriedades, somente mediante a colocação das iniciais "PR". Principe Regente ou Prédio Roubado, o que perferires. Olhando nossa história, isso quem diz é o Peninha, nunca tivemos qualquer movimento verdadeiramente popular. Independência? O Príncípe Português, olhem a contradição!!! Abolição? Penada da Princesa, com um atraso considerável quanto ao restante da América. Proclamação da República? Meia dúzia de marechais, o povo só ficou sabendo pelos jornais. 30? Cima para baixo. Golpe Militar? Idem. Ponto feito, outro parágrafo se impõe.

Tudo isso nada mais é do que nossa distorcida visão de Governo e de Estado. Nos EUA, e mais uma vez eu nunca estive lá, as pessoas tendem a ver o Estado como um mal necessário, tolerado desde que não atrapalhe a esfera privada das pessoas, que são, em última análise, quem produzem renda e "buscam a felicidade", como diz o filme do Will Smith. Aqui, contudo, olhamos para o Estado e vemos o resposável por todas as nossas mazelas. Saúde é ruim? Culpa do Estado. Educação? Habitação? Tudo culpa dele. Corrupção só existe lá, como se nós, como povo, não fôssemos adeptos ao jeitinho e, na pior das hipóteses, complacentes e passivos em relação a tudo que nos rodeia, como se nossos governantes fossem os "super-heróis" que nos salvarão do cataclisma ou terão a responsabilização eterna por todos nossos problemas como sociedade.

Escrevo tudo isso porque, como muitos, me desiludo com crise atrás de crise na política brasileira. As notícias repetem-se e não é de hoje. Nosso Legislativo não tem legitimidade, mas a impunidade e a complacência acabam por perpetrar um estado de inércia permanente, onde os escândalos se repetem ao ponto de serem tolerados como se fossem algo normal ou decorrência direta do poder. Bom, não é. Embora com alguns avanços -lembro, por exemplo, a necessidade de concurso público, que sequer existia antes da Constituição de 1988-, nunca cresceremos como sociedade se o exemplo perante nossas futuras gerações continuar sendo passado desta forma. Não há como explicar ao meu irmão tratamento cordato ao próximo quando, no Jornal Nacional, todo dia, ele vê senadores com "V. Exa. vai para aquele lugar". Não dá para incutir nas pessoas uma cultura de repulsa ao roubo e ao locupletamento ilícito quando ela não é punida pelo próprio Estado.

Resolvendo isso, acho que o Brasil tem tudo para dar certo. É verdade, contudo, que eu sou um otimista, então eu não conto. Abraço.