CONNIFF - Raízes do Brasil

Interessante como algumas coisas simples podem definir a natureza de um povo inteiro. Peguemos, por exemplo, o comércio. No Brasil, é comum a confusão entre a esfera familiar/afetiva do indivíduo com a esfera negocial. Nunca fui à Escandinávia, mas posso afirmar que é curiosa a quantidade de negócios/problemas que são solucionados aqui com "eu conheço alguém que pode te ajudar...". "Eu tenho um parente que trabalha...". Lá na Noruega as coisas devem ser mais profissionais, presumo. Afinal, se eu procuro um sapateiro, não quero que ele seja meu amigo, mas sim que ele me arrume o sapato. Acho que li isso no Raízes do Brasil, sendo que os holandeses foram os primeiros a notar que, para se negociar no Brasil, era mais útil tornar-se amigo do comerciante.
Isso acaba descambando para outro problema, qual seja, a confusão entre o que é público e o que é privado. Na verdade, se a esfera profissional se confunde com a familiar, o abstrato conceito de coisa pública torna-se um tanto quanto mais complicado para ser apreendido pelo brasileiro médio. Generalizações, saca. A coisa pública é de todos, de ninguém, logo, ela é minha. "Se eu puder entrar nela, tenho mais é que arrumar uma boa quantidade de parentes para aquinhoar na grande mãe leiteira que é o Estado". Este é o pensamento prevalente. Para isso, tenho outra explicação e outro parágrafo. "Na tela!".
No Brasil, já devo ter dito isso, as coisas sempre vieram de cima para baixo. A estrutura burocrática surgiu em 1818, antes que tívessemos maturação suficiente como povo para fazer qualquer coisa. Nesta oportunidade, inclusive, a Família Real chegou confiscando propriedades, somente mediante a colocação das iniciais "PR". Principe Regente ou Prédio Roubado, o que perferires. Olhando nossa história, isso quem diz é o Peninha, nunca tivemos qualquer movimento verdadeiramente popular. Independência? O Príncípe Português, olhem a contradição!!! Abolição? Penada da Princesa, com um atraso considerável quanto ao restante da América. Proclamação da República? Meia dúzia de marechais, o povo só ficou sabendo pelos jornais. 30? Cima para baixo. Golpe Militar? Idem. Ponto feito, outro parágrafo se impõe.
Tudo isso nada mais é do que nossa distorcida visão de Governo e de Estado. Nos EUA, e mais uma vez eu nunca estive lá, as pessoas tendem a ver o Estado como um mal necessário, tolerado desde que não atrapalhe a esfera privada das pessoas, que são, em última análise, quem produzem renda e "buscam a felicidade", como diz o filme do Will Smith. Aqui, contudo, olhamos para o Estado e vemos o resposável por todas as nossas mazelas. Saúde é ruim? Culpa do Estado. Educação? Habitação? Tudo culpa dele. Corrupção só existe lá, como se nós, como povo, não fôssemos adeptos ao jeitinho e, na pior das hipóteses, complacentes e passivos em relação a tudo que nos rodeia, como se nossos governantes fossem os "super-heróis" que nos salvarão do cataclisma ou terão a responsabilização eterna por todos nossos problemas como sociedade.
Escrevo tudo isso porque, como muitos, me desiludo com crise atrás de crise na política brasileira. As notícias repetem-se e não é de hoje. Nosso Legislativo não tem legitimidade, mas a impunidade e a complacência acabam por perpetrar um estado de inércia permanente, onde os escândalos se repetem ao ponto de serem tolerados como se fossem algo normal ou decorrência direta do poder. Bom, não é. Embora com alguns avanços -lembro, por exemplo, a necessidade de concurso público, que sequer existia antes da Constituição de 1988-, nunca cresceremos como sociedade se o exemplo perante nossas futuras gerações continuar sendo passado desta forma. Não há como explicar ao meu irmão tratamento cordato ao próximo quando, no Jornal Nacional, todo dia, ele vê senadores com "V. Exa. vai para aquele lugar". Não dá para incutir nas pessoas uma cultura de repulsa ao roubo e ao locupletamento ilícito quando ela não é punida pelo próprio Estado.
Resolvendo isso, acho que o Brasil tem tudo para dar certo. É verdade, contudo, que eu sou um otimista, então eu não conto. Abraço.

1 Comments:
At 2:28 PM, agosto 24, 2009,
Camoz said…
Concordo com boa parte do teu texto, só faço o seguinte comentário:
"Aqui, contudo, olhamos para o Estado e vemos o resposável por todas as nossas mazelas. Saúde é ruim? Culpa do Estado. Educação? Habitação? Tudo culpa dele."
Mas não é culpa do governo? Afinal, se o dinheiro não fosse tomado de nós, poderíamos encontrar nossas próprias alternativas e, quem sabe, dependendo das iniciativas tomadas, até fundar algum tipo de serviço social de saúde (desconectado do governo, por óbvio).
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