Opiniões Proféticas

sábado, agosto 28, 2010

Diógenes - Uma aventura na praça de alimentação

Caminhando pelo shopping, paro para comer um sanduíche do Subway. Observo a longa fila, uma dúzia de pessoas se amontoando diante de uma fachada estreita. Pego meu lugar na fila, atrás de um rapaz jovem, com uma cara de hippie versão anos 90. Atrás de mim, uma menina um pouco mais jovem do que eu, vestindo calça jeans e um moleton rosa.

Olho ao longo da fachada as placas que oferecem alimentos. As opções são muitas, mas todas parecem ser refeições razoáveis, bem equilibradas. No entanto, eu rapidamente filtro o cardápio, impondo a mim mesmo uma dieta especial. Sobram duas opções: um sanduíche com muzzarela de bufala e tomates secos, e outro apenas com salada.

Olho ao meu redor, pairando com o foco dos olhos ao longe, e observo a competição acirrada travada entre todos aqueles restaurantes. Uma fachada vende comida chinesa; outra, comida italiana; outra ainda vende apenas lanches gordurosos, o chamado fast-food. E no canto, quase vazio, vejo um buffet repleto de opções de carnes e saladas.

Me pergunto se, quando os clientes se afastam, os funcionários daquele estabelecimento comentam entre si até quando ele permanecerá aberto. Será que eles se importam, além do fato de que perderiam a segurança de um emprego?

Me ocorre então que o restaurante em que estou, de sanduíches, ao contrário do buffet, está bem colocado na disputa entre aqueles estabelecimentos. Pois, apesar do preço alto cobrado por um pedaço de pão com recheio de vegetais, a fila teima em ser renovada por novos clientes que chegam sabe-se lá de onde, felizes em trocar seus pedaços de papel coloridos por comida.

Fico pensando, enquanto não chega minha vez de ser atendido, o que leva alguns estabelecimentos a receber clientes e outros, não. Vários fatores podem ser imediatamente identificados.

Com relação às lojas, os fatores são: preço, qualidade percebida do produto, notoriedade da marca, reputação do estabelecimento no qual o produto é comercializado, competição entre as lojas.

Com relação aos clientes, os fatores são: potencial de público para cada produto na competição, quantidade total de público, e os infinitos fatores ambientais que levam os clientes a buscar (ou não) um produto.

Assim, na minha mente, eu monto uma explicação para o que está acontecendo (note-se que é uma explicação que pode ou não estar correta), e nela, o sucesso de cada estabelecimento é resultado destes fatores e de outros, que eu posso não ter percebido, invisíveis, mas que existem.

Por exemplo, qual é a explicação para o fato de que a loja em que estou, que vende "sanduíches saudáveis", possui tanto movimento? Simples: potencial de público para este produto. Existe, no universo do público desta praça de alimentação, um sub-grupo que divide a comida naquilo que pode / não pode comer. Este grupo dá menos importância ao preço do que ao que vai comer, e isto os leva a inundar esta fila. Eu, aliás, sou parte desse grupo - entrei nesta fila justamente porque nenhuma outra loja atende ao meu nicho.

E a loja de fast-food (McDonalds), por que possui tamanho público? Simples: qualidade percebida do produto e notoriedade da marca. Quem quer consumir deste estabelecimento, quer de fato consumir deste estabelecimento. Esta refeição não pode ser substituída por outra - de certa forma, a marca cria o seu próprio nicho.

E o buffet, abandonado, por que não consegue atrair clientes? Para mim, um mistério. O lugar parece bonito, limpo, cheio de opções. Mas, de longe, percebo uma coisa: não existem preços visíveis. E, como o lugar é tão limpo e bonito, parece caro. BAM! Primeira barreira criada - alguns não entrariam neste lugar para conhecê-lo, acreditando ser "caro demais". Continuo observando e percebo outra coisa: um buffet é algo genérico, sem nenhuma qualidade específica que atraia clientes. Diferentemente do fast-food, ou da sanduicheria, ou da comida italiana, ou da comida chinesa, o buffet não faz parte de um "tipo". E, ainda que ele possa atrair pessoas que esperam comer "um pouco de cada coisa", isto, a princípio, não atrai um público específico. Não possui nicho.

Alguns restaurantes ocupam nichos; outros, não. Aparentemente, os que ocupam nichos estão cheios, e os que não ocupam estão vazios. E qual é o significado disto? A conclusão óbvia, porém errônea, é de que apenas lojas ligadas a nichos sobrevivem. Pois como explicar as lojas anteriores, ligadas a nichos, que foram fechadas? Observo então que a competição leva ao fechamento os estabelecimentos mais fracos, considerando-se a soma de suas forças nos fatores de minha "fórmula".

Olhando ao meu redor, eu vejo um estranho de equilíbrio de forças. Não são forças físicas, como as observadas no equilíbrio de um castelo de cartas, mas as forças de um equilíbrio econômico. Forças que empurram pessoas para algumas fachadas, e as afastam de outras. E algumas destas fachadas serão as mesmas daqui há alguns anos; outras, não.

Eu posso prever, de forma justificada, quais são as lojas que resistirão. E eu posso justificar o motivo pelo qual determinada loja não irá sobreviver naquele ambiente, caso seja lá colocada. Não que eu realmente acredite estar certo; afinal, este "sistema" existe apenas na minha cabeça. Ainda que eu "acredite" que os fatores são razoáveis, talvez ele não represente adequadamente a realidade.

Chega a minha vez de ser atendido.