Como é difícil encontrar algo relevante sobre o que escrever.Não, o problema não é ter um assunto ou uma idéia. A mente... ela é uma tabela. Um sistema que cospe um resultado específico em resposta a um conjunto de estímulos, estímulos tais como os dados sensoriais e os próprios pensamentos. Quando existe suficiente complexidade acumulada no sistema neural que se situa entre a entrada e a saída, a mente é capaz de encontrar um resultado para
qualquer estímulo.
A isto, ao ilusório caos que representa a complexidade mental, o homem dá os nomes "intuição" e "idéia", vangloriando-se da infinita capacidade do olho da mente. Obviamente, o resultado da intuição não necessariamente possui correspondência com as regras do universo, e não necessariamente o pensamento que surge do "caos" pode ser compartilhado ou compreendido. Vangloria-se, então, com razão?
Pela visão do meu olho, que (se eu estiver certo) é apenas tão boa quanto eu a descrevi acima, a tal "intuição" e as tais "idéias" são o motivo pelo qual os feitos da humanidade são, por vezes... divertidamente equivocados. Se a humanidade dá dois passos para frente, dois passos para o lado e um passo para trás, ela ignora a existência de três dimensões. Ignora, portanto, que gastou a energia de cinco passos para mover-se apenas um para frente, considerando, pela sua visão bidimensional, a existência de um resultado muito mais eficiente.
Como é difícil encontrar algo relevante sobre o que escrever.Em um mundo onde tudo o que importa é a interação, em que as coisas que fazemos só tomam valor quando são compartilhadas, o pensamento que difere do senso comum é curioso, porém irrelevante. A solidão faz o homem rasgar-se ao meio e expor suas entranhas para o nada.
Quanto mais anômalo é um sistema, maior é a força que o incentiva a escrever um livro, a proferir um discurso, a eternizar uma frase, a inventar uma teoria, a imprimir uma percepção de motivos e sentidos em uma obra de arte. Maior é a força que o leva a querer imprimir uma cópia eterna de si mesmo no mundo, como um grito para a posteridade: "Eu correlacionei idéias! Eu escolhi, eu assumi valores como verdadeiros e me afastei de outros tantos! Eu existi!". A condição humana e o medo da morte fazem o homem buscar o sentido das coisas.
Nós, como seres mentais que somos, somos defeituosos. Somos imensos armazéns de "intuições" e "idéias", mas só conseguimos cuspir umas poucas linhas tortas, como resultado de estímulos não confiáveis, esporádicos e inesperados.
Passados uns tantos anos, uma análise póstuma revelará - se houver alguém capaz de considerar tal questão - que um sistema anômalo, mesmo quando em seu ápice, representa, de fato, apenas uma fração da massa do oceano de percepção da humanidade. Irrelevante.
Como é difícil encontrar algo relevante sobre o que escrever.O mundo é tão cheio de filosofias, de facetas morais, de pensamentos, de análises absurdas realizadas por terceiros, de redes de ação->conseqüência sem conseqüência, de segundas intenções (e ausências de intenção) que qualquer procedimento mental que não seja matematicamente ou sensorialmente trivial é uma tortura e um atentado à sanidade.
Uma simples conversa se desdobra em inúmeras linhas, motivos e implicações, e pode ser objeto de uma ou duas horas de neurótica repetição mental de sons e imagens, da aplicação de várias iterações de caoticamente complexa análise.
Diante de um círculo, que o Outro lhe diz ser quadrado, a mente não têm opção senão fechar-se em si mesma. Nesses momentos eu compreendo os cínicos, que se limitavam a latir para a sociedade e para o mundo. Qualquer gesto superior, nesta minha análise não-otimista (mas notem, não necessariamente pessimista), é um desperdício de energia.
Talvez o que me irrite, em verdade, seja a consciência de minha incapacidade de correlacionar e enxergar o tanto quanto preciso. Como máquinas que somos, somos todos limitados, inadequados para a tarefa de compreender o sentido do universo. De que adianta podermos enxergar cinco sentidos para uma frase se não podemos ver além das implicações locais, se estamos presos aos estímulos sensoriais e cruelmente limitados a uma tabela mental?
Inteligência - a complexidade do sistema que está entre a entrada e a saída, a capacidade de correlacionar estímulos e criar resultados -: eu poderia tê-la duplicada, e ainda assim não me sentiria completo pela ausência daquele algo, parte transcendente, que permite enxergar além da própria mente. O algo que permite escalar a montanha e finalmente enxergar a complexidade que gera a complexidade que gera acomplexidade...
Se eu pudesse me conectar em uma máquina, talvez pudesse mapear minha mente em uma verdadeira tabela e então aplicar o olho mental, "o processo de mim", em uma análise de mim mesmo, enxergando a mim mesmo em minha totalidade, e não por vislumbres criados ao acaso, originado de quaisquer limitados talentos de introspecção, e aí me tornaria a um sistema totalmente consciente dos meus próprios motivos, e quem sabe, recursivamente evolutivo.
Em um outro assunto, como eu gostaria de poder comunicar-me com as mentes que escreveram determinados textos! Não, não quero dizer conversar com as pessoas de agora que no passado escreveram tais textos, e sim com as mentes que, naquele momento no passado, idealizaram os motivos e os sentidos. Questionar os artistas, entender seus motivos: eis aí um pedaço da inteligência da humanidade que jamais alcançaremos, que está perdida e que jamais recuperaremos (a menos que descubramos uma forma de regredir o estado do universo, em uma espécie de engenharia reversa cósmica. Hah.).
Em um outro assunto... O preço da liberdade é jogar-se no abismo do desconhecido. O preço da escravidão é ter bolas de aço... e as minhas estão rachando. Dez mil anos em consultas com Freud não me ajudariam agora, não diante da insanidade com a qual "sou forçado" a conviver. Por sorte, eu sei que as minhas bolas estão rachando, logo, é meu dever, como ser consciente de mim mesmo, consertá-las periodicamente com durepox.
PS: Me desculpem por mais um texto (possivelmente) incompreensível. Minha mente está em um turbilhão neste exato momento e eu precisava externar
algo, mesmo que contornando aquilo que em verdade me aflige. Grande abraço.